terça-feira, 17 de abril de 2018

Reclamações


Numa manhã chuvosa, após uma noite mal dormida, sem inspiração para escrever, ao ver uma publicação num dos grupos que participo, de vez em quando, das interações, me peguei refletindo.

Como tem gente que só sabe reclamar! Qualquer coisa é motivo para reclamação. Talvez um dia eu também tenha sido como essas pessoas. Talvez eu já tenha reclamado de tudo ao longo da vida.

Sim, já tenho muitos anos vividos, graças a Deus, e com o tempo aprendi que não devemos reclamar de nada. A gratidão passou a fazer parte dos meus dias. No momento em que abro os olhos, ao acordar, agradeço pela vida. Muitos não acordam. Meu pai deitou-se para dormir como fazia todas as noites e na manhã seguinte não acordou.

Algumas pessoas dirão: - Ah, mas eu não sou uma pessoa passiva, se algo não me agrada, reclamo. Não discordo dessas pessoas. 

Quando há alguma coisa errada que está nos prejudicando, então sim, há necessidade de reclamação.

Mas, reclamar à toa, reclamar apenas pelo fato de reclamar? A insatisfação faz parte do dia a dia dessas pessoas?

Penso que se algo não me agrada, deixo de fazer. Sem polêmica. Ninguém é obrigado a fazer nada contra a vontade. Se é uma troca, faço a minha parte mesmo que o assunto em questão não me agrade.

- Ah, Fulana, eu não sou como você. Eu reclamo mesmo. Não aceito coisa errada.

- Espera aí, não falei que aceito coisa errada. Só comentei que não reclamo por qualquer coisa.

- Cada um tem um ponto de vista.

- Sim, sem dúvida. Eu também reclamo, se algo não estiver me agradando. Ou simplesmente deixo àquilo de lado, ignoro.

Sou uma pessoa pacífica. Em tempos de guerra, penso que o melhor a fazer é semear o amor e não a discórdia. 


Só precisamos de um coração cheio de graça. De uma alma gerada pelo amor. Vamos dar mais amor ao mundo! ”


Nesse mundo virtual só conhecemos as pessoas através das fotos e do que elas escrevem.  Como elas se apresentam em seus perfis.

Desde que comecei a participar das interações, muitas pessoas passaram pelo meu blog e deixaram comentários. Assim como eu passei por muitos blogs e deixei comentários.

Sempre procurei cumprir as regras dos grupos. Já saí de um grupo quando a administradora não aceitou mais os blogs que não faziam resenhas de livros. Me senti um peixe fora d’água, vesti a carapuça e saí fora.

Ao invés de reclamar, seja grato, tenha empatia.


PS: Isto é apenas um desabafo, fique a vontade para fazer um comentário. Sua opinião será bem vinda!

Grata,

Cidália.







quarta-feira, 11 de abril de 2018

Desalento



O que ela fez com a sua vida? Deixou-se levar pela vontade dos outros e perdeu o ânimo, a coragem. A lembrança da mulher determinada e vencedora tornou-se remota e em breve desaparecerá completamente da sua memória.

Presa na sua rotina sem graça ela passa pelos dias, semanas, meses a fio. Sente-se como um animal enjaulado. As pernas começam a atrofiar por falta de uma atividade física. Para levantar do sofá ela encontra dificuldades. Não tem a ver com a sua idade. Muitas mulheres idosas, colegas de outrora, ainda viajam, dançam, praticam atividades físicas.

Às vezes no meio do dia ela toma um banho para se refrescar e veste uma blusa de pijama. A vaidade foi embora há muito tempo. Abandonou-a. Dentro do seu guarda roupas, não tem nenhuma peça que a agrade. As roupas que estão ali não foram escolhidas por ela. Quando foi a última vez que comprou algo para si?

O calor é intenso e ela não encontra o ventilador. Devem ter levado dali. Ela pega uma revista para se abanar. Usa-a como se fosse um leque. Pelo menos havia uma revista por ali. Alguém a deixou no sofá. Ela folheou-a procurando uma notícia interessante. De repente se deu conta, ao olhar a data, que a revista era velha. Volta, então, a usá-la como leque. A revista é mais útil dessa maneira.

Seus cabelos desalinhados e embranquecidos rejeitam o pente. Ou será a sua mão que não tem mais firmeza para segurar o pente e pentear seus cabelos? Os fios estavam embaraçados. Ela para de tentar ajeitá-los para se abanar.

Batem na porta nessa tarde quente de verão. Ela ouve seu nome. Não se importa que está vestida com a blusa do pijama. Vai atender a porta. Coloca a revista debaixo do braço para liberar a mão. O pente continua na outra mão.

Ela recebe as amigas com um leve e cansado sorriso. Um misto de alegria e alívio. 

- Que bom que vieram me ver, eu estava pensando em vocês.

Uma das amigas vendo o pente em suas mãos, pega-o e penteia seus cabelos com facilidade. Enquanto isso conversam relembrando os bons momentos do passado. Querem alegrá-la, distraí-la um pouco.

Ela fica perdida ouvindo a conversa das duas, olhando para uma e outra sem entender nada.

- Vou me intrometer no assunto de vocês, mas sobre o que vocês estão falando mesmo?

As duas amigas tentam fazê-la participar da conversa. Em determinados momentos ela ri, parece entender sobre o que estão falando. Ela procura participar comentando sobre alguns fatos.

Em outros momentos ela fala coisas sem nexo. Parece que fala qualquer coisa apenas para participar da conversa.

Ao lhe perguntarem sobre sua saúde, ela diz que não tem doença nenhuma. Não toma nenhum medicamento. 

- Então, por que você não sai para passear, para caminhar um pouco, ver gente? - pergunta uma das amigas.

Ela responde que não tem vontade. Desde o dia que perdeu o direito de cuidar de si, perdeu também o estímulo, o desejo, a iniciativa.

Talvez ela nem consiga mais sair sozinha. As pernas estão perdendo as forças. A visão começa a ficar turva. A catarata está cobrindo seus olhos. Essas coisas são notadas e não faladas pelas visitantes.

Ela comenta que acredita que ninguém sente a sua falta. Ninguém a procura exceto as duas que estão sempre ali. Por onde andam àquelas que se diziam amigas? Provavelmente, entretidas com suas atividades diárias.

-E seus filhos? - Uma delas quis saber.

-Meus filhos têm seus afazeres, suas ocupações, não podem ficar o tempo todo comigo. Quando eles têm tempo aparecem por aqui.

Geralmente, quando ela está enjoada da televisão, olha pela janela para acompanhar o movimento da rua. Olhar o trânsito ajuda-a a passar o tempo. É um ótimo entretenimento. Às vezes ela conta os carros que passam, como se estivesse contando carneirinhos quando perdia o sono.

Outra coisa que ela faz é conversar com o cachorro, que sempre esquece o nome, para ouvir a própria voz. Com o cachorro como ouvinte ela fala coisas do passado. Repete a mesma história. O cachorro não reclama. É um bom ouvinte.

Quando as amigas chegam ela não tem assunto para conversar. Suas amigas conhecem de cor e salteado as suas histórias. Ela prefere ouvir as novidades do mundo lá fora. Novidades que entrarão por um ouvido e sairão por outro. Sua memória não retém mais como antigamente. 

Não reclama de nada. Foi ela quem se permitiu àquela vida. Agora não pode mais voltar atrás. Ou talvez, quem sabe, não tenha força para reagir. O isolamento tornou-se cômodo.

As amigas prometem levá-la para passear. Ela diz que vai aguardar pelo passeio. Se as pernas permitirem. 

Quem sabe sua alma, aparentemente morta para o mundo, reencontra a vontade de viver?

Suas amigas vão embora muito tristes por vê-la desanimada. Será que ainda há esperança para aquela pobre mulher? Ela precisa reagir. Lá fora existe vida. Ela tem que observar o vai e vem de pessoas que transitam pela cidade nas tardes ensolaradas.

Ela precisa se sentir, novamente, parte da comunidade onde mora. Ela deve mostrar aos filhos que tem vontade própria. Que ainda é capaz de escolher o que come e o que veste. Que é capaz te ter as suas próprias decisões. 

 Ela deixará a vida em preto e branco para se aventurar numa nova vida, uma vida repleta de cores?

Sua visita me deixa muito contente!

Obrigada,

Cidália.






terça-feira, 3 de abril de 2018

Arrependimento - FINAL


Antes de iniciar a leitura do capítulo final, se você quiser acompanhar a história desde o princípio, seguem os links:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/.../arrependimento...

http://contosdacabana.blogspot.com.br/.../arrependimento...

http://contosdacabana.blogspot.com.br/.../arrependimento...

http://contosdacabana.blogspot.com.br/.../arrependimento...

http://contosdacabana.blogspot.com.br/.../arrependimento...

http://contosdacabana.blogspot.com.br/.../arrepedimento...

Fui transferido para uma prisão bem longe da minha cidade. Uns 450 km de distância, segundo o advogado.

O guarda que me acompanhava não era de muita conversa. Era um homem de cara marrenta. Me lembrou o personagem de um filme de terror.

Não senti a viagem, porque ao entrar no veículo que me transportaria, apaguei. Pelo menos dormindo, eu não pensava.

Quando cheguei ao meu novo "lar", fui levado a uma cela onde estavam outros caras. O mais jovem era eu. Entrei de cabeça erguida e os cumprimentei. 

Numa breve apresentação fiquei sabendo que ali, naquela cela, todos eram assassinos. Eu era apenas mais um número. No olhar frio de cada um, senti que para eles matar era normal. Três deles haviam matado mais de uma pessoa.

Para viver num lugar como aquele eu não podia me fazer de santo. Já tinha aprendido algumas “tretas” na outra penitenciária. Se eu não fosse esperto corria riscos ali. Eu não pretendia ser a “mulherzinha” de ninguém. Vi coisas horríveis na outra prisão. Alguns presos se metiam em confusões e se davam mal. Passei por maus momentos. Momentos que quero apagar da minha memória.

Guardei meus pertences, as fotos da família e uma bíblia, que minha mãe mandara, debaixo do meu colchão. O dinheiro que a Isabel me dera estava escondido dentro da meia. Precisava arrumar um esconderijo. Dinheiro chamava atenção.

Quanto à bíblia eu tinha pouco contato. Conhecia algumas passagens da época em que fiz catecismo. Deixei de frequentar a igreja logo que me envolvi com os “amigos” na escola.

Não sei o que minha mãe pensou ao me enviar uma bíblia. Eu teria muito tempo para descobrir qual era a intenção dela. Sequer a abri. Guardei-a junto com as fotos. A única coisa que gostei de ler na infância foi gibi. 

Aos poucos fui me habituando naquele ambiente. Como eu não tinha opção, o jeito era me adaptar. Comecei a fazer artesanato com palitos de sorvete. Aquelas aulas ajudavam a passar o tempo e ocupavam a minha mente.

No começo foi difícil, mas acabei aprendendo. Ver aqueles palitos se transformando em barcos e aeronaves era gratificante. Acabei me tornando um artista. Eu poderia enviar de presente para minha mãe. Seria uma fonte de renda, se ela quisesse.

Nunca fui adepto aos exercícios físicos, mas ali, praticar qualquer tipo de atividade era muito útil.  Aliviava a tensão em que eu vivia. Tempo eu tinha de sobra. O artesanato e as atividades físicas me ajudavam muito.

A segunda carta da minha irmã, cinco anos depois daquele abraço, que acarinhou a minha alma, não me trouxe boas notícias.

“Olá Diogo, sinto muito ter que lhe dar uma notícia ruim, mas você precisa saber que o papai teve um derrame. Quase não dá para entender o que ele fala. Você lembra que após o infarto ele já não era mais o mesmo? Agora ele está irreconhecível. Ele parece a sombra do homem que foi um dia. A mamãe tem que se fazer de forte para cuidar dele. Não dou conta de cuidar de tudo e de todos. A vida segue seu curso. E você como está de saúde? A mamãe pensa muito na sua alimentação e na maneira como você vive aí. Cada vez que ela vê uma notícia sobre alguma penitenciária, passa mal. Me liga para saber se a tal rebelião não é no presídio que você está. Mande notícias, assim ela ficará mais tranquila. Beijos da sua mana,
Isabel.

Aquela notícia me deixou arrasado. Pobre papai. Como alguém como ele podia ficar doente? Devia ser proibido. Que infortúnio! A má sorte o rondava? Talvez, inconformado com o que aconteceu comigo, ele tenha perdido a vontade de viver.

Somente após receber a terceira carta da minha irmã foi que eu tive coragem para respondê-la.


"Isabel, enfim, depois de inúmeras tentativas, consegui escrever esta carta. As fotos que você deixou comigo são um alento para os momentos de angústia e tormento. Muitas vezes pensei em acabar com a minha vida para me redimir do meu pecado. Como pude tirar a vida de um ser humano, se nunca fui capaz de matar um bichinho qualquer? Só agora posso imaginar o mal que causei a vocês e à família daquele homem. É difícil pensar no papai, um homem trabalhador, hoje um inválido. Espero que um dia vocês possam me perdoar. Sei que a mamãe não acredita na minha culpa, mas o que fiz foi motivado pelas drogas. Ela precisa aceitar que sou tão culpado quanto meus companheiros. No Natal poderei ir para casa. Serão poucos dias que aproveitarei ao máximo com vocês. Obrigada por me manter a par das novidades. Foi bom saber que o papai está reagindo bem ao tratamento. Um grande abraço a todos,

Diogo."

Sei que meu arrependimento chegou tarde. Destruí a minha vida e causei tristeza à minha família.
Aqueles “amigos” que foram companheiros nas burradas não sei onde foram parar, sei apenas que fomos separados para cumprir a nossa pena.

Muitas vezes sei que sou repetitivo. Neste lugar temos poucas novidades. Os assuntos são sempre os mesmos. Como quero sair logo deste lugar por bom comportamento, evito confusão. Me afasto dos elementos maus encarados. Não ligo que caçoem de mim. Bem, como faço muitas atividades físicas, estou com o corpo definido e minha aparência impõe um certo respeito.

Chegou o Natal e eu pude sair em salvo conduto para visitar a minha família. Eu estava retornando para casa depois de longos anos sem ver meus pais e irmãos. Qual seria a reação deles ao me ver? Qual seria a reação dos vizinhos? Qual seria a minha reação?

Ao descer na rodoviária, fui discreto. Não encontrei nenhum conhecido. Se alguém me reconheceu não parou para falar comigo. Passei entre as pessoas que transitavam por ali como se fosse um ser invisível. 

Em casa, a família me aguardava com alegria. Meu irmão e a esposa foram me encontrar no portão. Quase não reconheci meus sobrinhos. Meu pai veio ao meu encontro com os braços abertos.

- O filho pródigo está de volta - Sua voz ainda estava enrolada devido ao derrame, mas consegui entender bem suas palavras.

Minha mãe não parava de chorar e seu abraço foi tão forte que pensei que ela não me soltaria mais. Minha irmã e meu cunhado tiveram que esperar um bom tempo para chegarem perto de mim. Minhas lágrimas não paravam de cair.

A única palavra que consegui pronunciar foi "perdão". Nem sei se alguém me ouviu, pois nem eu mesmo ouvi a minha voz. Percebi naquele momento a falta que fiz para minha família. Eu havia me tornado um ladrão e um assassino, mas para minha família eu continuava sendo o filho caçula. O filho que estava longe e estava retornando para casa, mesmo que fosse apenas para passar um feriado. Era como se eu morasse em outra cidade como o Zequinha e não estivesse vindo de uma prisão.

Na sala, os objetos feitos por mim, enfeitavam a estante. Percebi, que apesar de tudo, minha mãe sentia orgulho de deixar à vista aquelas peças de artesanato. Ela não sentia vergonha de mostrar para as visitas o meu trabalho. Para ela eram obras valiosas.

Meu quarto continuava do jeito que eu lembrava. Sobre a cama alguns presentes esperavam por mim. Presentes que eu deixaria ali a minha espera. Algumas roupas novas e perfumes. Para o lugar que eu retornaria àquelas coisas não seriam necessárias. 

No final da tarde saí no quintal de casa e cumprimentei alguns vizinhos que me viram por ali. Minha mão estava trêmula. Mesmo assim cumprimentei-os de mão pegada e de cabeça erguida. Nenhum dos vizinhos se atreveu a fazer qualquer tipo de pergunta. Se tiveram vontade, faltou coragem.

- Oi, boa tarde, tudo bem?

- Boa tarde, Diogo, tudo bem?

Depois de tanto tempo, ver aquelas pessoas foi muito bom. Para uma das vizinhas fui eu quem fez algumas perguntas.

- O Fábio vem passar o Natal aqui?

- Sim, ele vem com a família.

- Ele casou? 

- Casou e tem um filho.

O Fábio era muito amigo do meu primo Mauricio. Ele era alguns anos mais velho que eu. Apenas nos cumprimentávamos quando nos víamos. O Fábio havia saído de casa bem jovem para estudar fora.

Quanta coisa tinha acontecido por ali enquanto eu vivia trancafiado. A vida seguira seu curso como escrevera minha irmã. Somente a minha vida fora interrompida. Troquei a liberdade pelo cárcere.

Fiquei sabendo que meu primo Mauricio havia ido embora para os Estados Unidos e casado por lá. Nem todas as novidades a Isabel me contava nas cartas. Penso que ela não queria que eu me sentisse chateado. Quem sabe ela achava que eu poderia ficar triste ao saber que meu primo estava bem, enquanto eu estava ali, naquele lugar, junto com os criminosos. 

Eu me tornara um criminoso, não podia mais mudar a minha condição. Minha família precisava entender isso. Nenhuma justificativa atenuava meus atos.

O Natal daquele ano foi maravilhoso. Aquela última semana foi mágica. Passei muitas horas com meus pais. Ouvi com atenção algumas leituras da Bíblia feitas pela minha mãe. Sua voz acalentava minha alma. Eu voltava a ser um bebê ouvindo uma cantiga de ninar.

Na virada do ano saí para ver o movimento na praça. Não fui sozinho. Minha irmã e a família me acompanharam. Encontrei alguns colegas da época da escola. Trocamos algumas ideias. Nada sobre a cadeia. Conversamos sobre futebol e música.

Por uma semana pude sentir o gosto da liberdade novamente. Tive que voltar para a minha cela e esperar pelo próximo salvo conduto. Os momentos que passei com a família me deram ânimo para suportar a minha rotina atrás das grades.

Aqui estou eu sentado num canto da cela, sozinho e cada vez, mais reflexivo. Não me resta outra coisa para fazer a não ser pensar e pensar. Hoje, doze anos após eu e meus “amigos” cometermos o maior erro da nossa vida, não me canso de pedir perdão a Deus.

Acredito que sairei em breve por bom comportamento. Meu novo advogado me deu esperança. Já faz um tempo que trabalho na cozinha do presidio. Aprendi a cozinhar. Quando voltar definitivamente para casa dos meus pais terei uma profissão. Poderei devolver a eles o dinheiro que gastaram comigo. Afinal eles merecem uma velhice confortável.

Continuo sem notícias dos "amigos", mas espero que eles tenham aprendido alguma coisa com o erro. Eu aprendi. Só penso em aproveitar cada momento livre como na música que aquece o meu coração nas noites frias desta cela. Canto-a baixinho para que meus companheiros não se incomodem.

https://www.youtube.com/watch?v=xHfjEkZp5xc   (Ouça a música enquanto faz a leitura)

Assim vou vivendo, um dia após o outro, com a fé de sair dali, em breve, para poder aproveitar o máximo o tempo com meus pais. Os anos perdidos não serão recuperados. Porém, os anos vindouros, me trarão uma nova chance.

FIM


Sonho de Ícaro





Voar voar
Subir subir 
Ir por onde for
Descer até o céu cair 
Ou mudar de cor
Anjos de gás 
Asas de ilusão 
E um sonho audaz feito um balão
No ar no ar eu sou assim 
Brilho do farol 
Além do mais amargo fim 
Simplesmente sol 
Rock do bom 
Ou quem sabe jazz
Som sobre som
Bem mais, bem mais
O que sai de mim vem do prazer
De querer sentir o que eu não posso ter
O que faz de mim ser o que sou
É gostar de ir por onde, ninguém for
Do alto coração
Mais alto coração
Viver, viver
E não fingir
Esconder no olhar pedir não mais
Que permitir
Jogos de azar
Fauno lunar
Sombras no porão
E um show vulgar
Todo verão
Fugir meu bem
Pra ser feliz
Só no pólo sul
Não vou mudar
Do meu país
Nem vestir azul
Faça o sinal
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom
Repetir o amor já satisfaz
Dentro do


PS: Ilustrações feitas pelo meu sobrinho Marcos Wagner. 


Só tenho a agradecer a visita e o carinho de você que leu um capítulo ou que acompanhou o conto desde o início.


Um abraço,


Cidália.








terça-feira, 27 de março de 2018

Arrepedimento VI


Dia e noite eu pensava nos meus pais e nos meus irmãos. Como eles estavam? Teriam superado a vergonha, a decepção? A saudade habitava meu coração e aumentava a cada dor infringida ao meu corpo. 

Ah, se eu pudesse voltar no tempo para poder sentir o abraço carinhoso da mamãe e o aconchego do meu lar!

O dia chegou ao fim e tivemos que voltar para a penitenciária. Cada um de nós foi para a sua cela.  Trocamos um adeus sem palavras, somente com uma troca de olhares. Iríamos aguardar o julgamento.

No dia em que usando um capuz sobre a cabeça assaltamos e matamos um pai de família acabamos, também, com a nossa vida.



A minha rotina na prisão era igual a de todos os prisioneiros. Os dias eram sempre iguais. A minha história tornou-se comum como todas as histórias dos residentes daquele lugar.

Como uma planta que vai morrendo com o passar do tempo, seja por excesso ou falta do sol, eu sentia a vida dentro de mim se esvair.  Enquanto os jovens da minha idade tinham a vida pela frente, para curtir cada momento com a família e os verdadeiros amigos, a minha juventude seria desperdiçada dentro daquelas paredes.

Procurei ficar na minha para não agravar a minha situação. Cumpria minhas tarefas de cabeça baixa. Enquanto aguardava o julgamento imaginava o que aconteceria comigo. Sentia uma certa inquietação com o futuro incerto.

Quando encontrava meus “amigos” no refeitório ou no pátio onde íamos tomar sol, eu os ignorava. Eles não se importavam comigo, me deixavam à mercê do meu próprio isolamento.

Muitas vezes a droga me foi oferecida e eu a recusei. A abstinência me fazia ter alucinações, mas mesmo assim eu a suportava. Essa era a punição que eu merecia.

Uma vez que a droga me colocou naquela situação eu passei a repeli-la. Ela me fez refém de mim mesmo e agora eu a rejeitava. Teria que ser forte para ficar longe do vício, pois ali a droga era passada de mão em mão, tanto nas celas, quanto no pátio. Bastava ter dinheiro.

Durante o tempo em que eu aguardava o julgamento não recebi a visita dos meus pais e nem dos meus irmãos. Ao me colocar no lugar dos meus pais, eu os entendia. Visitar o filho na cadeia era muito difícil. 

O único contato que eu tinha com o lado de fora era com o advogado. Numa de suas visitas ele me entregou uma carta escrita pela Isabel, minha irmã.



“Diogo, estou escrevendo a você para dar notícias da mamãe e do papai. Eles não têm coragem de vê-lo na prisão. O papai está usando as economias para pagar o advogado. A mamãe chora muito, não consegue falar seu nome sem derramar rios de lágrimas. Ela tem certeza de que você é inocente, que seu erro foi estar junto com aqueles delinquentes. Quanto a mim ainda não fui visitá-lo, porque não tenho tempo, além de cuidar das crianças, ainda tenho que cuidar do papai e da mamãe. Eles perderam completamente o chão. Nosso irmão só poderá vir nas férias, então não podemos contar com ele. Logo que você foi preso, algumas pessoas ficaram curiosas e fizeram muitas perguntas a mim. Não tiveram coragem de perguntar à mamãe. Se bem que ela parou de sair de casa. Quando ela e o papai precisam sair sou eu que os levo. Não sei se iremos assistir o julgamento. Se não estivermos lá, espero que nos perdoe. Estaremos torcendo para que a pena não seja longa. Um grande e carinhoso abraço do papai, da mamãe e dos seus sobrinhos. Beijos, Isabel. ”



Ao ler aquela carta, depois que o advogado foi embora, agarrei-me a ela e chorei.  O que mais eu podia fazer a não ser chorar sobre o leite derramado? Um dos companheiros de cela, olhou para mim e começou a rir.

- Pobrezinha da mocinha, por que está chorando? Não recebeu a visita da mamãezinha?

Como não respondi à provocação o cara desistiu de me perturbar.

Antes que os outros presidiários voltassem para a cela, guardei a carta e deitei. Fechei os olhos fingindo que estava dormindo. Cobri os olhos com os braços.

Eu não conseguia parar de pensar nos meus pais. No que eu fiz com eles. Desgraçara a minha vida e fizera da vida deles um pesadelo.

O que eu poderia fazer para amenizar o caos em que se transformara a vida dos meus familiares? Nada, a não ser tentar mudar o meu comportamento dali em diante.

Chegou, enfim, o dia do julgamento. A minha ansiedade era gigantesca. Encontrar a minha família me deixava nervoso. Eu não queria que eles me vissem chegar algemado. Torcia para que eles não comparecessem.

Lembrei da carta; a Isabel dissera que talvez não fossem ao julgamento e respirei aliviado. Seria melhor para mim e para eles. Não queria que eles passassem por mais um constrangimento.

Eu seria o primeiro a ser julgado. Entrei algemado e de cabeça baixa. O tribunal estava lotado. Olhei de soslaio. Não identifiquei nenhum conhecido na plateia.

Lembro de ter sentido todos os olhares sobre mim quando entrei na sala. Pensei nos jurados. Como foram escolhidos? Eles me conheciam? Conheciam a minha família? Eles queriam estar ali fazendo parte daquele "cenário"?

Respondi as perguntas que me foram feitas. Ouvi as testemunhas, o advogado de defesa, o promotor. Jamais imaginei estar ali com todas as atenções voltadas para mim. Como eu havia confessado o crime, meu advogado estava tentando reduzir a minha pena.

Não entendi porque eu e meus “amigos” não fomos julgados juntos. Segundo meu advogado eles tinham mais passagens pela polícia do que eu. Minha família estava pagando um advogado e eles contavam com advogados do estado.

Os jurados ouviam atentamente todas as acusações. De vez em quando eu sentia a piedade no olhar de um deles. Mas, por que piedade, quando eu merecia um olhar cravado de ódio? Eles estavam ali para ouvir a versão sobre o crime e fazer a justiça.

Teria na plateia algum parente da vítima? Nem quis pensar nessa possibilidade. Se tivesse alguém, certamente estaria querendo me ver pelas costas. Ou seja, estaria torcendo para que eu pegasse a pena máxima.

No final do dia, a sentença foi pronunciada. Tive que ficar em pé para ouvi-la. Obedeci prontamente. Era tudo que me restava. O filhinho da mamãe agora era um homem condenado. A penitenciária seria minha residência por 25 anos. Se eu me comportasse sairia antes.

Saí dali sabendo que seria transferido para outra cidade. O advogado ficou de levar a minha irmã para se despedir, um dia antes. Ele prometeu conseguir alguns minutos para que pudéssemos ficar juntos. Não seria um até breve e sim um até um dia!


A Isabel foi me dizer adeus e levou fotos do papai, da mamãe, do Zequinha e dos meus sobrinhos com o meu cunhado e ela. Quando eu sentisse saudade poderia olhar aquelas fotografias. Junto com as fotos havia uma bíblia que minha mãe mandara.

- Diogo, hoje tive que pedir para uma vizinha cuidar das crianças e dos nossos pais para eu vir aqui. A mamãe disse que vai arrumar outro advogado, queria que eu te dissesse isso. Ela não se conforma com a sua pena.

- Não deixe que ela faça isso Isabel, você sabe que não vai adiantar nada recorrer à sentença. O advogado fez o que estava ao seu alcance.

- Escreverei sempre para te manter informado sobre nossos pais. Trouxe algum dinheiro. Você vai precisar para enviar cartas para nós.

E assim, nos despedimos, com um abraço caloroso. Naquele abraço voltei a ser um menino, o filhinho da mamãe, estudioso e obediente. No perfume da minha irmã, senti o cheiro da minha mãe. Acho que elas usavam o mesmo perfume. 

Se eu pudesse me agarraria àquele abraço para sempre. Se eu pudesse voltar atrás escolheria a liberdade. Se...Se...Se.... 

Tudo o que eu tinha naquele momento era aquele abraço. O abraço que representava o amor da minha família. O amor que eu não valorizei quando deveria. O amor que deixei em segundo plano quando optei pelo caminho tortuoso.

Para alguma coisa a vida que escolhi viver estava servindo. Eu passava todo o tempo pensando, refletindo sobre as minhas ações. Por que não pensei nas consequências dos meus atos antes? Por que deixei me enredar na criminalidade?

Outros jovens como eu residiam ali. Eu olhava-os, disfarçadamente, enquanto tomávamos sol no pátio ou estávamos no refeitório. Ficava imaginando qual era o crime de cada um. Estariam ali pelo mesmo motivo que eu? Teriam sido dominados pelas drogas?

O arrependimento chegou um pouco tarde para mim. Nada do que eu fizesse devolveria a paz e a tranquilidade que um dia eu tive. Viver entre os criminosos era o que me restara. O jeito era seguir adiante!


Continua...


Obrigada pela visita, sua opinião é muito importante para mim!


Abraços,

Cidália.














terça-feira, 20 de março de 2018

Arrependimento V



Chegando na delegacia encontrei meus “amigos”. A testemunha que havia anotado a placa do carro contou que viu uns cinco rapazes entrando num automóvel. Quando ele viu o homem ensanguentado e sem vida no chão, chamou a polícia. Foi fácil chegarem até mim. Um dos meus companheiros me entregou. 

Naquele momento percebi que eu não tinha mais saída. Mesmo que continuasse com a boca fechada, o fato de estar fugindo agravava a situação.

Os olhares se voltaram na minha direção. Dedos me apontavam. Me tornei o centro das atenções. Eu, que sabia esconder tão bem meus atos. Eu, que mentia com naturalidade. Eu, que omitia a verdade quando era conveniente. 

Abaixei a cabeça e segui os policiais. Como seria dali em diante para mim? Nuvens escuras pairavam sobre meu futuro. Meus dias seriam nublados. Algum dia o sol seria contemplado novamente por mim?

Mais uma vez lá estávamos eu e meus “amigos” numa delegacia. Só que dessa vez não era só por causa de um roubo e sim por um assalto seguido de assassinato. A queixa não poderia ser retirada. Minha família já tinha sido notificada. 

Quem apareceu foi a minha irmã. Não consegui encará-la.

- O Zequinha ligou para um advogado amigo dele, logo ele estará aqui.

A voz ficou enroscada na minha garganta. Na verdade, nem sabia o que falar para a Isabel.

Com o canto dos olhos vi que meus “amigos” estavam sozinhos. Esperavam por alguém da família.

Eu pouco sabia sobre a família de cada um. Quando estávamos juntos os assuntos eram outros. Sei que dos quatro, apenas um tinha pai, o dono do Fusca que estava conosco durante o crime.

Pensei em cada membro das nossas famílias. De repente comecei a me preocupar com cada um deles. Meu pai que já não era mais o mesmo homem depois do infarto. Minha mãe que sempre me defendia, meus irmãos que um dia sentiram orgulho de mim e meus sobrinhos que teriam um tio assassino. Como seria dali em diante para eles?

Por que essas preocupações não apareceram antes que eu cometesse aquele ato insano?

Agi por minha conta e risco. Teria que arcar com as consequências, assim como meus “amigos”. 

Todos éramos maiores de idade. Teríamos que responder pelas nossas ações. Nossas famílias teriam que suportar o vexame, encarar a realidade. 

- Diogo, não sei se o papai vai suportar esse sofrimento. A mamãe é mais forte do que ele, apesar de andar deprimida desde a época do roubo do restaurante do titio. - Parece que a Isabel leu meus pensamentos.

 Enquanto eu ouvia minha irmã, as lágrimas brotaram nos meus olhos. Tentei disfarçá-las.

- Posso sentir que você está arrependido do que fez, meu irmão, vou fazer o que puder para ajudá-lo.

 Estava admirado com a atitude da Isabel. Mesmo eu tendo feito o que fiz, ela não me virou as costas.

 Nem ela e nem o meu irmão. Ambos estavam me ajudando naquele momento, quando poderiam ter me abandonado à própria sorte.

- Sabe, Diogo, talvez eu e o Zequinha tenhamos uma parcela de culpa nisso tudo. Deixamos que a mamãe passasse a mão na sua cabeça todas as vezes que você aprontou.

Naquele momento eu nem sabia o que dizer a ela. A vergonha de repente se apossou de mim. Ali, diante da minha irmã mais velha eu me sentia um moleque sem juízo. Merecia aquele sermão.

Esperava que meu irmão não aparecesse. Como iria olhar nos seus olhos?

O advogado chegou sozinho, ainda bem, e foi cuidar do caso. A partir daquele momento eu e meus “amigos” seríamos transferidos para uma penitenciária no município vizinho.

Isabel se despediu de mim com um longo abraço. Não havia palavras para serem trocadas. Nem um até breve. Ela segurou o choro e eu também. Nenhuma lágrima me livraria da culpa.

Tempos depois fiquei sabendo, pelo advogado, que a família do homem assassinado por mim e pelos meus “amigos” clamava por justiça. Era um direito da família. 

Aquele pobre homem teve um grande azar ao atravessar o nosso caminho naquela noite fatídica. Tudo poderia ser diferente se ele não tivesse cruzado conosco. 

Alguns dos meus vizinhos mais próximos foram chamados para falarem o que sabiam sobre mim. 

Até a Edileusa, minha ex namorada teve que comparecer à audiência. O olhar que ela me deu cravou uma espada no meu coração. Era um olhar de pena. Ela respondeu todas as perguntas como se falasse de um estranho. 

Ao sair da sala ela não me olhou mais. Eu fazia parte do seu passado, uma fase que ela já tinha esquecido. Eu era uma página virada. Ainda bem que sua vida não estava mais entrelaçada à minha.

Aquele foi o primeiro pior dia de muitos que viriam pela frente. Um dia de muita tristeza, quando cada uma das pessoas teve que me apontar entre os “amigos”, estávamos algemados um ao outro. Juro que vi lágrimas brotadas em alguns olhos. Olhos de pessoas que me conheciam desde pequeno. Pessoas que não imaginavam que eu estava metido naquela "vida".

A falta da droga estava afetando a minha mente. Eu estava muito emotivo. O que eu estava passando na prisão me fazia sentir, cada vez mais, um ser desprezível.

Com quem eu podia reclamar? Afinal, estava pagando pelo erro que cometi. De filho amado e mimado eu passara a um vil assassino, odiado e maltratado. Percebi em cada olhar dirigido a mim e aos companheiros um misto de pena, desprezo e decepção.

Eu não podia me comunicar com aquelas pessoas. Gostaria de poder falar a elas que eu estava pagando pelo meu crime. Que deixei para trás uma vida confortável, uma família que me amava, para viver no inferno. 

Eu não tinha motivo para ser um adolescente revoltado. Tarde demais, percebi que os cuidados que a minha mãe tinha comigo eram os mesmos que todas as mães têm com seus filhos.

Se eu tivesse compreendido que meu pai me amava à sua maneira, quem sabe não teria cometido tantas tolices.

As lembranças da minha casa, do meu quarto, da comida feita com amor pela mamãe, do almoço em família aos domingos e até mesmo dos cuidados excessivos da minha mãe, corroíam a minha alma. 

Dia e noite eu pensava nos meus pais e nos meus irmãos. Como eles estavam? Teriam superado a vergonha, a decepção? A saudade habitava meu coração e aumentava a cada dor infringida ao meu corpo. 

Ah, se eu pudesse voltar no tempo para poder sentir o abraço carinhoso da mamãe e o aconchego do meu lar!

O dia chegou ao fim e tivemos que voltar para a penitenciária. Cada um de nós foi para a sua cela.  Trocamos um adeus sem palavras, somente com uma troca de olhares. Iríamos aguardar o julgamento.

No dia em que usando um capuz sobre a cabeça assaltamos e matamos um pai de família acabamos, também, com a nossa vida.

Continua....


Sua visita me deixa muito feliz, obrigada!

Abraços,

Cidália.





domingo, 11 de março de 2018

Arrependimento IV


Eu saía todas as noites para encontrar os “amigos”. Esperava meus pais dormirem e saía de fininho.

Numa dessas noites resolvemos ir de carro para outra cidade. O carro era um Fusca velho, que um dos “amigos” pegou sem ordem do pai.

Usando capuz para cobrir o rosto cometemos o maior erro da nossa vida. Um erro sem volta, sem perdão. Um erro que marcaria a minha juventude e decepcionaria àqueles que me amavam. 

Tudo por causa da falta de dinheiro para comprarmos a droga. A dependência química nos levou ao desespero.

Era para ser apenas um assalto, a arma era de brinquedo, mas como o homem reagiu, nós o matamos. Com chutes e pauladas. Um de nós carregava um cacete. Não lembro de onde surgiu aquele pedaço de pau. Ele simplesmente estava lá na mão de um dos meus companheiros.

Queríamos dinheiro e não a vida do pobre coitado. Por que ele não facilitou para nós? Teria salvado a própria vida. Bastava nos entregar seus pertences. Ele seguiria seu caminho e nós o nosso. Sem violência. 

Ele era um contra cinco e nós estávamos desesperados. A dependência nos fez devedores. A dívida precisava ser paga para conseguirmos mais drogas. Nunca havia droga suficiente para nós. 

Deixamos aquele senhor caído no chão e fugimos. Sequer pensamos em olhar para trás depois do ato cometido. Pegamos a carteira, o celular e fugimos o mais rápido possível. 

Naquele momento não pensamos em mais nada. Tudo o que queríamos era voltar para casa. Nos tornamos assassinos. Já não éramos, apenas, ladrões.

 Depois do ocorrido voltamos para nossa cidade e cada um foi para sua casa. Fui para meu quarto e dormi de porta trancada. Eu estava atordoado, ainda sob efeito da droga que tinha usado antes de sair. 

Quando acordei com a cabeça girando e a boca seca, ouvi minha mãe ao telefone.

- O Diogo está dormindo, Isabel, o que você quer com ele?

Minha mãe começou a chorar e eu continuei em silêncio no meu quarto. Não queria que ela sofresse, mas era impossível evitar tal sofrimento. O mal estava feito.

Pouco tempo depois minha irmã apareceu e bateu na porta. Ela deve ter criado asas para chegar tão rápido.

- Diogo, o que você andou aprontando? Acabei de saber de um crime que aconteceu na cidade vizinha. Parece que alguém viu a placa do carro, é do pai de um daqueles seus "amigos".

- Minha filha, o que você está dizendo? - Mamãe não queria admitir a verdade, apesar do choro incessante. - Seu irmão não fez nada.

- Mãe, a senhora tem certeza de que ele não saiu ontem a noite?

- Eu e seu pai fomos dormir cedo. Não ouvimos barulho nenhum.

- Se ele não fez nada porque não me responde. Que sono pesado é esse?

- Deixe seu irmão em paz, Isabel. Não quero que seu pai escute essa barbaridade.

- Onde está o papai?

- Seu pai está cochilando lá na área dos fundos, na rede.

- Ai, ai, mamãe, estou com medo que esse rapaz possa ter aprontado desta vez. Vocês têm o sono pesado, ele pode ter saído quando viu que estavam dormindo.
- Vá para sua casa, filha, assim que seu irmão acordar eu peço para ele te ligar.

- Mãe, escute, se ele estava com aqueles carinhas e cometeram o crime, a polícia vai descobrir.

- Seu irmão não fez o que você está dizendo. Ele é um bom rapaz.

- Se a senhora pensa que ele não fez nada, então por que está chorando desde a hora que cheguei?

- Porque você está acusando injustamente seu irmão.

- Não, mãe, é porque no fundo a senhora está com medo de descobrir a verdade. Isso se chama pressentimento.

Ouvi passos se afastando. De repente se fez silêncio. Abri a porta do quarto e vi minha mãe debruçada sobre a mesa da cozinha. Ela ainda soluçava.

Olhei para fora e vi meu pai dormindo na área. Depois que ele infartara dormia muito após o almoço. Talvez fosse efeito dos medicamentos.

Abracei a minha mãe e pedi perdão. Era tudo o que podia fazer naquele momento.

- Mamãe, preciso desaparecer por um tempo.

- Se você fez alguma coisa errada foi influenciado pelos outros. Procure seus irmãos e peça ajuda, meu filho.

Minha mãe não queria se conformar, para ela eu era seu filhinho, incapaz de fazer qualquer maldade à alguém. Ela acreditava que eu era uma pessoa influenciável. Talvez eu tenha sido fraco ao me deixar envolver com a droga, só que não adiantava chorar sobre o leite derramado. 

- Só preciso de algum dinheiro. 

Mamãe foi até seu quarto e pegou todo o dinheiro que tinha e me deu. Coloquei umas roupas numa mochila e dei um abraço nela. O abraço que recebi foi caloroso, acompanhado de um beijo molhado pelas lágrimas. Mais uma vez pedi que ela me perdoasse. Era tarde para eu me arrepender. O que eu tinha feito não tinha volta. Não era como uma palavra errada, na folha de um caderno, que podia ser apagada. 

Saí antes que meu pai acordasse. Como eu poderia olhar nos seus olhos e me desculpar pela dor que estava causando à minha família?

Ao chegar à rodoviária, a polícia apareceu em seguida. Não tive tempo de comprar uma passagem de ônibus. Eu estava fugindo. Tinha acabado de assinar a minha culpa. 

Chegando na delegacia encontrei meus “amigos”. A testemunha que havia anotado a placa do carro contou que viu uns cinco rapazes entrando num automóvel. Quando ele viu o homem ensanguentado e sem vida no chão, chamou a polícia. Foi fácil chegarem até mim. Um dos meus companheiros me entregou. 

Naquele momento percebi que eu não tinha mais saída. Mesmo que continuasse com a boca fechada, o fato de estar fugindo agravava a situação.

Os olhares se voltaram na minha direção. Dedos me apontavam. Me tornei o centro das atenções. Eu, que sabia esconder tão bem meus atos. Eu, que mentia com naturalidade. Eu, que omitia a verdade quando era conveniente. 

Abaixei a cabeça e segui os policiais. Como seria dali em diante? 

PS: Ilustração feita pelo meu sobrinho Marcos Wagner (ele está sempre disposto para me atender).

Continua...

Sua visita me deixa feliz e agradecida!

Uma abençoada semana,

Cidália.